domingo, 18 de abril de 2021

Meu encontro com a Deusa

Minha primeira experiência “na força”, ou “acordando na matrix”

Tenho 43 anos de idade, e experimento com psicodélicos químicos desde os 17 anos. De lá para cá foram milhares de experiências variadas, mas nunca com a força e o entendimento lúcido proporcionado pela combinação correta de substâncias naturais.

Eu sempre fui uma pessoa cética, centrada nos aspectos físicos das sinestesias, e nas enxurradas de subconsciente que afloram na lisergia.

Apesar de ter uma formação literária centrada no estudo de mitologia, esoterismo e espiritualidade, as experiências sempre eram “silenciosas”, ou seja, ninguém falava comigo.

Resumindo, foram muitas trips de muita cor e sensações agradáveis, vi amigos queridos brilhando, objetos se movendo e distorcendo, alguns vultos ao estilo Dementor sobrevoando raves, várias risadas e conclusões de vida, mas nenhuma mensagem verbal.

A Argirea foi a primeira vez em que senti uma presença forte, e quando comecei a entender o conceito de aliado que Don Juan cita no livro A erva do diabo, de Carlos Castañeda. Foi a primeira vez em que senti a ligação com a entidade da planta, e a ouvir o que ela me falava sem palavras. Ela tem uma presença muito forte, e traz uma sensação de ligação com o Todo que literalmente te enraiza no chão, como se a vontade da planta fosse maior do que tudo. Muito confortável e relaxante.

Só vim a experimentar cogumelo depois de muitos anos de lisergia. O Cubensis foi algo similar à Argirea, mas pela primeira vez com uma voz verbal à parte da minha.

A voz do cogumelo tem uma mensagem diferente do vegetal.

Ao fechar os olhos me concentrava nas mandalas, mudando de forma e percebi alguns vultos no plano de fundo, e sabia que eram eles as entidades que me dirigiam a palavra.

Resumindo, essa foi a primeira vez em que realmente ouvi uma voz que não era a minha dentro de minha cabeça me dizendo; “É a gente que manda em tudo. Nada acontece sem a gente”, e vi dentro das mandalas coloridas as ramificações do micélio universal.

O contato com a entidade do Micélio me mostrou que tudo o que é vivo depende deles, e a vida como conhecemos existe apenas porque os fungos existem.

Nossa saúde depende do equilíbrio da flora intestinal, e quando temos um “gut feeling”, são os fungos de nosso corpo dizendo algo para a nossa carne.

Como a dose de cogumelos não foi muita, a viagem ficou só nesse sentimento de contato com o Todo, ao mesmo tempo em que eu era observado pelos vultos em uma sensação de carinho e conforto.

A minha primeira experiência definitiva aconteceu a algumas semanas, quando tive acesso a um kit de arruda síria, cubensis e changa fumável.

A indicação era fazer um jejum de algumas horas, tomar o chá de arruda síria, após uma hora ingerir 5g de cubensis, e após outra hora fumar a dose de changa.

Eu e minha esposa seguimos o preceito do jejum, tomamos o chá, consumimos os cogumelos e deitamos na cama para esperar os efeitos começarem.

Assim que comecei a sentir o entorpecimento, fechei os olhos e as mandalas coloridas começaram a povoar o espaço escuro de minha visão como naves espaciais fluorescentes vindas de todos os lados em direção ao centro. Logo as mandalas se juntaram a uma grade quadriculada, que mudava de forma incessantemente, como se fosse um powerpoint educativo me mostrando como as infinitas dimensões partilham o mesmo ponto do espaço.

Nesse momento eu senti a presença dos vultos novamente, e eles estavam felizes por eu estar ali com eles. Me acalmavam dizendo que em todos os pontos do universo todas as dimensões coexistem, e me perguntavam o que eu queria saber.

Eram aproximadamente oito vultos sobrepostos ao caleidoscópio de padrões geométricos. Não os reconheci, mas tive a certeza que me eram entes queridos.

Percebi que eles removeram minha alma pelo lado esquerdo do meu corpo, e eu vi minha alma sobrevoando meu corpo, em um estranho tipo de visão que me parecia ser em 360º.

Os vultos trabalhavam em minha alma, limpando e retirando coisas que pareciam me sugar, mas eu tinha a nítida sensação de que os “parasitas” que eram retirados eram tratados com carinho e atenção. Eu dizia para não os machucarem, e soube que eles estavam sendo levados para onde necessitavam estar.

A situação toda parecia como uma máquina de cura espiritual, como se fosse uma cápsula médica multidimensional, me preparando para o que iria acontecer.

Nesse momento meu gato veio deitar no meu lado direito, e eu vi os vultos darem espaço para ele participar da “cura”. O ronronado dele me confortava e fazia tudo melhor.

Então minha esposa me disse estar na hora de fumar o DMT da changa, eu me levantei para preparar o cigarro.

Tenho um altar com uma caveira de resina talhada com tribais, e quando dei conta de mim mesmo, estava fazendo o cigarro ajoelhado em frente à caveira.

Nesse momento, meus gatos começaram a brincar de pega pega em torno de mim, e percebi que o cheiro da changa e do chá de arruda também fizeram efeito neles. Percebi que eles estavam mais ariscos, e olhavam para as mesmas mandalas que apareciam para mim.

Terminei de bolar o cigarro, e o ofereci à caveira. Naquele momento eu soube que estava falando com a Morte, e pedi encarecidamente que desejava a conhecer em Sua totalidade, que eu queria saber quem ela é de verdade.

Me deitei novamente na cama, acendi a changa, e após 3 tragos fechei os olhos novamente, e junto com as mandalas que giravam cada vez mais rápido, comecei a ouvir a música do vegetal, como se fosse um coral composto por infinitas vozes. Esse coral deu lugar a um zumbido, que foi ficando cada vez mais alto. Quando o zumbido ficou insuportável, deu lugar a um silêncio profundo, e fui arremessado diretamente a um lugar distante, onde tive o encontro com a Deusa, conforme meu pedido feito para a caveira.

Para explicar o que senti, preciso fazer algumas analogias com cinema. Eu acabei chegando à conclusão que o filme 2001 de Stanley Kubrick fala exatamente sobre essa experiência. Quando o monolito preto aparece para os macacos pré históricos, a música de fundo é um coral de centenas de vozes, seguido por um zumbido que vai ficando cada vez mais alto, e quando o macaco toca o monolito, o zumbido pára, a a cena troca para o macaco se dando conta que pode usar um osso como ferramenta. Na cena do monolito na Lua ocorre o mesmo; coral de vozes, zumbido crescente quando o astronauta toca o monolito, zumbido fica insuportável, e corta a cena para a nave espacial viajando para Júpiter.

Minha conclusão foi a de que esse estado alterado de consciência nos mergulha na Mônada do conhecimento citada por Hermes Trimegistros na Tábua de Esmeralda. Após passarmos pelo coral de vozes infinito e o zumbido insuportável, voltamos com um fragmento do conhecimento que nos é pertinente.

A sensação que tive dentro da Mônada era de que TODO o conhecimento estava disponível, e os vultos me diziam que ali eu poderia saber tudo o que gostaria.

Me lembrei de Nikola Tesla, e os sonhos lúcidos que ele relatava ter, quando foi revelado para ele as inovações no campo da eletricidade que nossa sociedade usa hoje em dia.

Voltando à descrição da experiência, quando o zumbido chegou no seu ápice, eu me senti como na cena do filme Dr Estranho, quando a Anciã toca a testa de Stephen Strange, e ele é arremessado imediatamente através das dimensões, e eu me senti como se fosse o Neo acordando na Matrix, e a vasta paisagem biomecânica do universo se abriu para mim. Naquele momento eu estava vendo com visão 360º total, e me encontrei em um universo que poderia ser descrito como Cenobita ou o palácio de Cthulhu, só que apesar de ter um formato grotesco feito de carne e vegetal em completa simbiose e movimento, não havia medo, nem terror e nem dor. Apenas uma sensação deliciosa de amor supremo por todas as coisas, e nesse momento Ela se revelou para mim.

Ela era o grande organismo universal que é a Morte cumprindo meu pedido de A ver em sua totalidade, me mostrando que ela também é a Vida. Me dizendo que não existe separação entre nada, que não existem coisas “perfeitas” sem as “imperfeitas”.

O efeito caleidoscópio das mandalas continuava infinitamente me mostrando que o grande quadriculado dos pilares da Criação contém em si todas as formas possíveis, e ia mudando de forma, passando por galhos e vinhas vegetais, para músculos que lembravam paisagens de Giger, mas bioluminescentes como peixes abissais.

Então me foi mostrada a grande teia que permea o Todo, como as linhas do destino tecidas pelas três Nornes. Dentro do efeito caleidoscópio, eu via a passagem dessa manifestação como a grande aranha Ananse, para todas as outras divindades que “tecem”nosso destino.

Nesse momento Ela olhou para mim e me sorriu com suas infinitas bocas, dentes, tetas, folhas, galhos, flores, ovos, tentáculos, braços, asas, olhos e dedos. Ela me mostrou que a teia do destino que tece como Deusa Aranha Ananse, na verdade é o seu corpo também. Ela é o topo da cadeia alimentar, Tudo o que é, se alimenta dentro Dela e faz parte Dela. Ela é a Deusa da Morte e Vida, e me mostrou como a parcela dela que se entitula como Micélio é parte imprescindível da manutenção do Todo através da putrefação e renovação da matéria morta em vida novamente.

“Tudo o que vive tem que morrer, para poder viver novamente dentro de Mim.” Nada se perde nesse ciclo, e como filhos da Vida, podemos ter a certeza de que nunca deixaremos de existir.

Tenho que reiterar, que apesar de estar inserido nesse contexto Gigeresco cenobita, que pode parecer grotesco à princípio, e que por diversas vezes foi retratado no cinema como sendo uma dimensão de puro Mal, mas a sensação que tive sempre foi de carinho e amor universal.

Foi como se a Deusa Kannon, ou o Buda Avalokitesvara me mostrassem que sua verdadeira face também á a de Kali, ou Shiva destruidor.

A mensagem passada foi a de que não existe destruição na verdade, e que realmente “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

E que por mais que os seres “morram”, eles nunca deixam o ciclo da cadeia alimentar, sempre sendo retornados ao caldo universal, com a promessa de continuar o processo a partir do ponto em que deixaram a Vida.

Perguntei então o porquê de existirem os tiranos e as pessoas maldosas, e Ela me explicou que quando ignoramos o fato de que todos os seres vivos irão morrer, esquecemos que o poder de tirar e dar é somente Dela.

Toda essa sensação de carinho e amor supremo me deu a certeza de que devemos cuidar de todos com carinho, pois todos iremos morrer em algum ponto, e não há sentido real em acelerar a morte das coisas por nosso bel-prazer.

Tive a confirmação de que devemos amar ao próximo como amamos a nós mesmos, pois em realidade o outro faz parte de nós. Todos fazemos parte do corpo da Deusa.

Ela é a cadeia alimentar completa, se alimenta de si mesma, e Ela se ama acima de tudo, portanto nos ama infinitamente também, pois não há separação.

A vida existe apenas para existir, para viver, e não está em nosso poder como indivíduo ir contra a vida.

Outra constatação que me foi elucidada, foi a não necessidade de intermediários espirituais. Eu pedi uma audiência com o Ser Supremo, e não me foi negada.

Quando acordei no dia seguinte, me senti estranhamente sem ressaca. Algo inédito em todas as minhas aventuras psicodélicas. Todas as vezes em que eu viajava com substâncias químicas, no dia seguinte sempre me sentia acabado e exaurido, mas o contato com a Deusa através das plantas sagradas me deixou renovado, com uma força e certeza nunca antes alcançadas.

Aprendi uma grande lição sobre adicção a substâncias químicas; quando usamos apenas uma substância, nossa alma pende para para a influência individual, e nossa percepção é prejudicada, ficamos à mercê dos espíritos obsessores de cada substância.

O uso cerimonial de três substâncias me deu o conhecimento de que a santíssima trindade é uma analogia a essa abordagem, e dessa maneira, nossa alma fica centralizada entre os vértices das substâncias que usamos, não pendendo para o desequilíbrio, ficando assim livre para usufruir de tudo o que as infinitas dimensões nos tem a oferecer.

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